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Onde reinar a polícia
a humanidade cavou o seu túmulo

Mesmo se se simular um certo desprendimento, da primeira vez é- se colhido por um nojo violento, pela impressão duma total perda de dignidade. É precisamente a isso, e só a isso, que se quer reduzir o indivíduo atirado para dentro duma prisão: fazer-lhe sentir que não passa duma merda insignificante. Só os gracejos e as brincadeiras dos reclusos atenuam um pouco esta sensação de aviltamento.

Prender uma pessoa não quer dizer simplesmente retirar-lhe a liberdade, e ainda menos reeducá-la. Trata-se, na realidade, de destruir até às últimas as veleidades de resistência do indivíduo; rebaixar o homem: eis a missão das prisões, eis a missão da justiça, dos homens de leis, dos códigos e dos autos.

O que é excepcional é encontrar-se um magistrado ou um alto funcionário que não apresente uma deficiência psíquica profunda.

A redução do espaço vital traz consigo o domínio totalitário do tempo, que se prolonga e se torna pesado até ser medonho. O tempo para os prisioneiros, é um monstro imóvel em relação ao qual lhes é impossível ter influência. Nada é mais cruel e insuportável do que este tempo de um absurdo e total isolamento.

O poder cede perante a força, e de modo algum perante a razão e ainda menos perante as razões de um recluso anónimo.

Mezioud Ouldamer

 


Arquivo: revista Maldição nº1,1986
Coordenação. Miguel A. Casal Monteiro (José Tavares)
endereço: Coimbra
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