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Jean Meslier,
precursor da ideia anarquista

A humanidade só será feliz quando
o último membro da nobreza for enforcado
com as tripas do último padre!

   O homem que escreveu os primeiros escritos decididamente anarquistas. Hostil à autoridade da Igreja e do Estado. Não somente da realeza, mas do Estado, dos seus «oficiais», agentes da justiça, senhores feudais. Sonha com uma pequena república camponesa, sem outra autoridade mais do que o bom senso, da tradição e da natureza. Quer abolir a propriedade e o casamento. Estranho à lei. Na realidade se ele não é ainda anarquista, ele merece o nome de precursor. Este homem é o padre Jean Meslier.

   Nasceu em 1664 na aldeia francesa de Mazerny. Os seus pais não eram pobres. O pai vendia tecidos. Quando entrou nas ordens religiosas deram-lhe um património em bens ou diversas heranças, o que fez dele um padre abastado, quase rico. A sua família tinha um bom número de eclesiásticos, alguns deles chegaram a cargos importantes na hierarquia da Igreja. Jean Meslier tornou-se padre sem vocação, mas também sem constrangimento. Deixou-se conduzir facilmente – é ele que o diz – à vida eclesiástica porque era o desejo dos pais, e, sem dúvida, pensava como eles, é «uma vida mais doce, mais tranquila, mais nobre do que a do comum dos homens».

   Fez os seus estudos no seminário de Reims. A 18 de dezembro de 1683 foi ordenado padre, e, após ter cumprido algumas tarefas, foi nomeado padre de Értrépigny em dezembro de 1688. Tinha vinte e quatro anos de idade e até à sua morte, em 1729, para os seus contemporâneos ele não foi mais do que um padre de aldeia igual a tantos outros, nem melhor nem pior. Foi preciso morrer para surgir a realidade do seu ser. Os seus colegas eclesiásticos, que foram ao seu funeral para lhe prestar os últimos deveres, assustaram-se tanto que se escusaram a deixar as condolências no livro de registo da paróquia, como se dessa forma o banissem da comunidade cristã. Tinham encontrado em casa do abade um enorme manuscrito, com, no papel que o envolvia, o seguinte sobrescrito, o verdadeiro título do Testamento: Memórias dos pensamentos e dos sentimentos de Jean Meslier sobre uma parte dos erros e dos abusos de conduta e do governo dos homens, onde vemos demonstrações claras e evidentes da vaidade e da falsidade de todas as divindades e de todas as religiões do mundo, para, após a sua morte, ser destinado aos seus paroquianos, e, para testemunhar a verdade a eles e a todos os seus semelhantes. In testimonium illis et gentibus. Mat.X,18 .

   Dissimulado de padre durante toda a sua vida, Jean Meslier confiou à morte o cuidado de soltar o véu e deixar que os homens vissem o seu verdadeiro rosto.

Conhecemos muito pouca coisa da sua vida, mas o suficiente para decifrar o percurso do seu drama. Escreve o seu Testamento nos últimos anos da sua vida e foi sem dúvida prudente, arriscava muito se fosse descoberto. Mas é de crer que não sentiu tanto a necessidade de o escrever, em todo o caso, antes da meia idade.

Tudo leva a crer que se tornou incrédulo muito cedo, talvez desde o seminário. O facto, sem ser banal, nada tem de estranho, principalmente nesse momento da sociedade e da Igreja. Talvez que a sua incredulidade tenha qualquer coisa de particularmente clerical e de voluntário, atribuída à hereditariedade eclesiástica. Havia muitos padres na sua família. Fala, no inicio das suas Memórias, de padres que «entre eles troçam dos ministérios, das máximas e das cerimónias da sua religião… e da simplicidade dos crentes». Jean Meslier duvida em entender estes propósitos, sem dúvida antes de se tornar um padre provinciano isolado no meio das suas ovelhas. Não foi essa a origem da sua descrença, o seu ateísmo parece ser da mesma ordem, um ateísmo sem paixão, mesmo sem ironia, mas ligeiro.

   Conta-se que um dia um homem jovem muito incrédulo e audacioso, como corresponde a essa idade, atacou vigorosamente a religião diante de algumas pessoas, uma das quais o abade Meslier,  que respondeu, com o maior sangue frio, não ser necessário ter espírito para ridicularizar a religião, mas era preciso muito para a defender. O duplo sentido é evidente. Como um libertino de salão, o padre Meslier constrói as frases. O seu ateísmo é sorridente.

   Um outro episódio da sua atitude pública foi conservado. «Assim que ele pregava sobre determinados assuntos, por exemplo, o paraíso ou o inferno, exprimia-se sempre por “os cristãos dizem, os cristãos querem, os cristãos crêem”, falando assim fazia um gesto, sem dúvida comovido, cobrindo com a mão direita parte do rosto para não se perceber tanto um sorriso, do qual ainda nada sabíamos de toda a sua maldade.» Na verdade, pese o aspeto um pouco satânico desse riso, pese também uma espécie de escrúpulo que podemos ver nessa preocupação de não tomar conta de crenças que não partilha, dá ideia que o padre se diverte, que é ao mesmo tempo o espetador e o ator de uma comédia que ele representa e contempla sem amargura.

   Donde virá então esse desencadear de paixão e de ódio que anima as Memórias dos pensamentos e dos sentimentos? Indubitavelmente, de uma experiência pessoal de injustiça social, de uma revolta contra a opressão dos poderes eclesiásticos e dos poderes temporais de que foi a vitima.

Possuímos sobre Jean Meslier um determinado número de relatórios feitos pelos seus superiores hierárquicos. Parecem indicar muito nitidamente, a partir de uma certa data, uma completa mudança da autoridade episcopal a seu respeito. Durante vinte anos era só cumprimentos. Cumpre de modo correto com os deveres que lhe competem. Registam mesmo que possui bons livros. Uma só mancha neste quadro quase edificante: o padre tinha como empregada doméstica uma jovem prima, ela tinha vinte e três anos de idade e ele trinta e dois. Mas este reparo parece ser feito sem aspereza e nada nos diz que Meslier se tenha conformado mais ou menos exatamente às regras canónicas na matéria.

   O que é que se passou? Durante a vida do arcebispo Le Tellier, que morreu em 1710, Meslier beneficiava de indulgências particulares e o novo arcebispo, Monselhor de Mailly, não lhe concedeu o mesmo? Não teria sido mais o conflito que Meslier tinha com o senhor da aldeia que provocou a hostilidade do arcebispo contra ele? De todas as maneiras, foi no dia seguinte à contenda que o relatório desfavorável a Meslier foi redigido.

   Donde vem a querela que o opõe ao senhor de Touly? Segundo Voltaire, o senhor tinha maltratado alguns camponeses e, em forma de punição, o padre Meslier tinha recusado recomendá-lo nas orações dos seus paroquianos. Parece mais que contestou junto do dito senhor determinados direitos honoríficos que este pretendia, se bem que, segundo o abade, nunca tinham sido concedidos aos seus predecessores. Com efeito, sabemos pelo mesmo relatório, que o padre tinha instalado no coro da igreja bancos para os burgueses de Étrépigny, e esta atenção ao privilégio do senhor tem a aparência de um contra-ataque do padre sobre o assunto em litígio.

   Até aí Meslier tinha aceitado sem muito esforço a sua falsa posição, sem se preocupar em mostrar fervor, em multiplicar as cerimónias, não querendo abusar das vantagens materiais que o exercício do seu ministério proporcionava. Mas esta conjugação das autoridades temporais e espirituais para o humilhar, para o quebrar, desencadeia nele a revolta. Sentiu o seu orgulho e a sua honra atingidas. Também sem dúvida na carne. Teve de se separar dessa jovem empregada que tudo leva a crer era também sua companheira. Que dilaceramento! E tamanha explosão de ódio!

   Mas precisava de se conter, para não perder o que lhe restava de vida confortável e quieta, a fim – é ele que informa – de não chamar «a indignação dos padres e a crueldade dos tiranos» para cima dele. Cala-se mas escreve. O seu livro não é a obra apaziguada de um homem preocupado somente do «progresso das luzes». É um grito, um frémito de revolta. Contra a sociedade hierarquizada, opressiva. É aos poderes que o padre Meslier se atira, nisso um autêntico precursor do pensamento anarquista.

   Qual é o tema essencial do seu livro? A religião é o suporte da tirania, de todas as tiranias. Não é somente mentira. É opressão. «A religião e a política não deviam acomodarem-se juntas… Mas o que se deve fazer nem sempre se faz. Entendem-se como dois carteiristas… A religião sustenta o governo político, por pior que ele seja. O governo político sustenta a religião, por mais idiota e vã que ela possa ser.» Tal «é a origem de todos os males que atormentam os homens e de todas as imposturas que infelizmente os mantêm presos ao erro e à vaidade das superstições, como também sob as leis tirânicas dos grandes da terra.» É por isso que Meslier chama para si aquilo que escutou de «um homem que não tinha ciência nem estudo, mas que segundo as aparências, não lhe faltava bom senso… Defendia que todos os grandes da terra e todos os nobres fossem pendurados e estrangulados com as tripas dos padres». Os grandes, nobres e padres, eis os inimigos.

Ilustração do jornal anarquista brasileiro A Lanterna (1919) 
com a célebre frase que Jean Meslier ouviu da boca de um analfabeto 
a quem não faltava bom senso.

   Ódio aos reis. Nenhum outro escritor no século XVIII escreveu com tanta violência contra a realeza. Nenhum príncipe é do seu agrado, nem mesmo Henri IV que, no entanto, alguns anos mais tarde Voltaire irá celebrar. «Onde estão, pergunta Meslier, os generais mortíferos dos tiranos que existiram no século passado? Onde estão os Brutos e os Cassius? Onde estão os generais matadores de um Calígula e de tantos outros monstros semelhantes?… Onde estão os Jacques Clément e os Ravaillac da nossa França? Vivessem eles ainda no nosso século… para desancar ou para apunhalar todos esses detestáveis monstros e inimigos do género humano e para libertar por esse meio todos os povos da terra da sua tirânica dominação!» Parece que escutamos as declamações furiosas de 1793, e, no entanto, o século está só no seu inicio. Rousseau tem quinze anos de idade.

   Não é somente contra a dominação de uma casta, é contra todas as castas dominantes, contra todo o aparelho de Estado que Meslier protesta, convidando «os povos» – este plural não significa internacional – a insurgirem-se. E atenção, estes ataques contra aquilo que chamamos hoje funcionários, contra os oficiais do rei, não somente os agentes de justiça, «de injustiça», como ele diz, mas todos, até aos mais modestos, «carrascos, controladores, cobradores de impostos, archeiros, guardas, sargentos, escribas» e outros «canalhas», não é proveniente de uma interpretação teórica.

   Meslier conhece as misérias dos «pobres povos». Sabe que trabalham, e que esse trabalho é útil. «Tudo isto, falando das cerimónias do culto, não pode produzir um grão de trigo, não vale um golpe de enxada que um pobre manobreiro dá na terra para a cultivar.» As desigualdades de que são vítimas, os maus tratamentos que os agentes dos senhores e do rei exercem sobre eles indignam Meslier. Mas pensa que estes abusos não tem a sua causa neles próprios, mas derivam todos de um abuso primordial, a propriedade. «Os homens apropriam-se cada um à sua maneira dos bens da terra em lugar de os possuir e usufruir todos em comum.» Uma vez que «todos os homens são iguais por natureza. Têm também igualmente direito de viver e caminhar sobre a terra, de usufruir da sua liberdade natural e de ter parte nos bens da terra trabalhando de modo útil uns com os outros para obter as coisas necessárias à vida».

Este comunismo não é na sua expressão de tal maneira original. Não mesmo, talvez nas suas fórmulas mais extremas – uma liberdade absoluta de relações entre os sexos – nem na sua justificação histórica fundada sobre os Actos dos apóstolos. Mas esta banalidade desaparece quando pouco a pouco entramos no pensamento de Jean Meslier.

   Eis a sociedade que sonhou:

   «Um outro abuso…, que é quase universalmente recebido e autorizado no mundo, é a apropriação particular que os homens fazem dos bens e das riquezas da terra, em lugar delas serem de igual modo possuídas em comum e usufruir delas todos igualmente em comum. Entendo por todos, aqueles e aquelas de um mesmo lugar e de um mesmo território, de maneira que todos e todas que são por exemplo de uma mesma cidade, de um mesmo burgo, de uma mesma aldeia ou mesmo da paróquia e da comunidade, componham todos juntos uma mesma família, olhando-se e considerando-se todos como irmãos e irmãs, e por consequência vivendo tranquilamente e num conjunto comum (…) Se os homens possuíssem e usufruíssem de igual modo em comum… dos bens, das riquezas e das comodidades da vida, se eles se ocupassem… em alguns honestos e úteis exercícios, ou em algum honesto e útil trabalho do corpo e do espírito, e se administrassem sabiamente entre eles os bens da terra e os frutos dos seus trabalhos e da sua indústria, teriam o suficiente para todos viverem felizes e contentes, uma vez que a terra produz quase tudo o suficiente e mesmo abundantemente para os alimentar e entreter, se fizerem sempre bom uso dos seus bens.»

   Claramente Meslier sonha antes de tudo com uma comunidade rural. Também fala da cidade, mas sem insistir. Descarta o problema ou talvez nem o coloque. Não fala nem de indústria nem de artesãos das cidades. Parece mesmo descartar todo o comércio e reduzir as trocas de uma comunidade a outra a ajudas ocasionais em caso de necessidade.

   Neste quadro estreito, a utopia deixa de ser uma quimera. A comunidade da terra, a terra bem comum de todos como o ar que cada um respira: a noção é concebível. Mesmo a divisão espontânea dos trabalhos ou ao contrário a sua coordenação «segundo as sessões ou as estações», a familiaridade no seio da comunidade, a escolha criteriosa dos homens mais aptos ao «mantimento do direito público», tudo isso, sob as aparências de idílico, corresponde precisamente à realidade da velha civilização agrária.

   De que serve o Estado numa civilização deste tipo? De onde pode surgir? Das alianças entre comunidades? Mas o padre Meslier concebe-as sob a forma mais folgada, a de menor constrangimento. Na verdade, dissolve as grandes nações modernas, decompõe-nas, desagrega-as. A paz e o «bem público» não necessitam de ministro. Não é necessário os cuidados de um federador nem de um organismo coordenador. Parece-lhe ser «absolutamente necessário que exista entre os homens uma subordinação e uma dependência de uns aos outros. Mas é preciso que essa  dependência e essa subordinação sejam justas e proporcionadas, isto é, que elas não façam elevar muito uns e baixar muito outros, nem bajular uns e calcar os outros, nem enfim colocar todos os bens e todos os prazeres de um lado e colocar de outro todas as penas, todos os cuidados, todas as inquietudes, todos as tristezas e todos os desprazeres, do mesmo modo que uma tal dependência e subordinação é injusta e odiosa, e contra o direito da própria natureza».

   Dá ideia que ele devaneia com um governo de tipo habitual, mas corrigido nos seus excessos. É de outra coisa que se trata. Na comunidade rural, as relações humanas em larga medida são análogas às de família: a igualdade é um facto inclusive na desigualdade, nas diferenças devidas à idade, ao temperamento, às capacidades, às necessidades.

Meslier é um autêntico homem de ideias avançadas, muito mais do que foram seguramente os «filósofos» da sua época. Para estes, mesmo que não pronunciem o seu nome, o Estado está sempre sub-entendido. Para Meslier é a sua recusa que se entende.

   O Testamento é um apelo à ação. Meslier fala aos seus paroquianos, para os convidar a agir, sem aguardar que outros façam por eles a sua própria tarefa.

   «A vossa saúde está nas vossas mãos. A vossa libertação só depende de vós, se souberem bem entender todos… Uni-vos, povos, se forem sábios. Uni-vos todos, se têm coração, para vos libertar das vossas misérias comuns… Comecem antes de mais por comunicarem secretamente os vossos pensamentos e desejos. Espalhem por todo o lado, e o mais habilmente que se possa fazer, escritos semelhantes a este, por exemplo, façam conhecer a todo o mundo a vaidade dos erros e das superstições da religião e tornem, por todo o lado, odioso o governo tirânico dos príncipes e dos reis da terra. Tomem nas vossas mãos todas as riquezas e todos os bens que vós próprios com o suor dos vossos corpos fazem abundantemente aparecer, tomem-nos para vocês mesmos e para todos os vossos semelhantes. Não deem nada a todas essas soberbas e inúteis nações, não deem nada a esses soberbos e ricos indolentes. Não deem nada a todos esses monges e eclesiásticos inúteis, não deem nada a esses altivos e orgulhosos nobres, não deem nada a esses soberbos e orgulhosos tiranos nem àqueles que os servem. Digam mesmo aos vossos filhos, a todos os vossos parentes, a todos os vossos aliados e a todos os vossos amigos para os deixar e abandonar inteiramente o seu serviço e de nada fazer por eles. Excomunguem-nos integralmente da vossa sociedade… e por este meio eles secam, como secam as ervas e as plantas quando as raízes não extraem mais o suco da terra.»

   Não se trata nem de declamação vã nem de arrebatamento oratório. Meslier meditou sobre os meios de agir e a sua meditação conduziu-o a conceber qualquer coisa que é já ação coletiva – uma espécie de greve imensa dos trabalhadores da terra que privam dos meios de vida todos aqueles «que nada fazem no mundo». E isso sem necessidade de tomar o poder, de conquistar o Estado para transformar a sociedade. Esses métodos não são convenientes para gentes humildes.

   Esta mensagem anarquista nunca chegou aos paroquianos de Étrépigny, nem a parte alguma. Os burgueses que fizeram circular o Testamento tiveram o cuidado de o meter a seu gosto. Mas o padre não saiu frustrado da sua vingança. Quando os camponeses, durante o Grande Medo e muitas vezes no decorrer da Revolução, obedeciam sem o saber ao apelo que sessenta anos antes Meslier tinha querido lançar.

Claude Harmel
tradução de J.T.

Disponível na Biblioteca:
Memória
Jean Meslier
148pp / 2013
Antígona
BOESG Rua da Penha de França 217